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Minha desilusão com Campinas

20 ago

Tenho 38 anos. Nasci, cresci, estudei e fiz minha vida em Campinas. Fui atraído pelo futebol em virtude da rivalidade de Ponte Preta e Guarani. Cresci em bairros anteriormente periféricos e que hoje transformaram-se em templos da dita classe média alta. Convivi com transportes deficitários, sistema de saúde caótico e talvez a pior parte: uma cidade que, apesar de ostentar um potencial econômico espetacular e maravilhoso, parece ter a triste sina de ser dividida em duas partes: de um lado, uma cidade de 600 mil habitantes, capitaneada pelas regiões do Ouro Verde e do Campo e formada por gente simples e lutadora e que vive com a sina de perceber que não tem saída.

Do outro, a Campinas antiga, aristocrática, que não aceita a diversidade e impregnada por um provincianismo letal. Excludente em todos os sentidos. Você vai no Cambuí ou em outras regiões ricas na cidade e a cara de poucos amigos está ali, na sua cara, para você. Não há como você ser bem recebido. Ninguém fala, mas os gestos dizem tudo. É como se para morar ou conviver ali, você deveria fazer parte de uma casta ou de uma eleição divina.

Essa divisão perdurou por anos e anos. Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, apesar dos problemas na curta gestão, foi o primeiro a adotar uma postura transparente e buscar um pacto que unisse esses dois lados da cidade. Que não existisse mais preconceito de qualquer lado. Que todos focassem em um único objetivo: a construção de uma cidade solidária, pacata e de paz.

Seu assassinato não destruiu o projeto político do PT e sim de todo um processo de reconstrução e de união. Izalene Tiene, a vice-prefeita,  perdeu-se em sua própria ineficiência administrativas e nas disputas internas do partido.

Basta fazer uma retrospectiva a partir de 2004 e verá que o prefeito cassado (com merecimento!) na madrugada de hoje teve a visão de perceber que existia uma parcela da população carente, desprezada e humilhada pelo outro lado da cidade. E que do outro existia uma Campinas cresceu e virou uma metrópole. Quer apenas seus pedidos atendidos e pronto.

Quando ganhou a eleição, o plano era perfeito. Para agradar a classe média, recapeamento, melhoria das praças e uma cidade limpa e impecável. Do outro lado, programas sociais para amenizar o sofrimento de uma população anteriormente desprezada e construção de empreendimentos esquecidos na gaveta, como o Túnel Joá Penteado, o Hospital Ouro Verde e a nova Rodoviária . Assim, não haveria como perturbá-lo.

Chegaram as eleições de 2008 e como Hélio não é bobo, colou em Lula e aproveitou-se da pobreza de lideranças políticas na cidade. Hoje nós xingamentos com razão o prefeito cassado? Quem poderia ser colocado em seu lugar? Carlos Sampaio? Jonas Donizete? Com todo o respeito, deixa para lá…

]Talvez isso que a ressaca cívica não permita ninguém enxergar: Campinas está falida em termos de lideranças. Hélio percebeu e colocou suas ideias maquiavélicas em prática porque sabia que não seria atrapalhado.

Pois bem, o Ministério Público fez sua parte, a imprensa cobriu os acontecimentos de modo magistral e Hélio será apeado do poder. Demétrio Villagra, por sua vez, tem a sombra da cassação sobre suas costas. Mas a pergunta que fica é: e agora?

Parem e pensem: existe a garantia de que as duas partes da cidade vão se unir? Será que a população carente será atendida em seus anseios? E quais lideranças políticas podem conduzir Campinas a um novo patamar? Josias Lech? Angelo Barreto? Canário? Bileo Soares? Benassi? Artur Orsi? Sellin? Guilherme Campos? Carlos Sampaio? Por favor, não queiram brincar com minha paciência…

Daqui alguns dias, ninguém vai se lembrar de Hélio e da turma do Mato Grosso. E esse apartheid social, essa separação virtual, essa luta de classes existente em Campinas continuará firme e forte. A saída de Hélio de Oliveira Santos deveria ser o começo de uma nova era. Mas existe um empecilho: ninguém, absolutamente ninguém, tem capacidade e estofo para a tarefa. E existe um agravante: falta vontade em colocar a mão na massa. Os mesmos políticos que cassaram Hélio querem que tudo continua do jeito que está: migalhas à periferia e agrado ao contingente provinciano. Em termos de estrutura e pujança, Campinas é a capital do interior do estado de São Paulo. Mas no espirito de sua sociedade, é praticamente inviável. Triste.

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Publicado por em 20 de agosto de 2011 em Uncategorized

 

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